Renda fixa

Estoque de LCAs em junho bate maior valor desde 2011 e supera LCIs; taxa real chega a 6,78%, com isenção de IR

Já no caso de ativos atrelados ao CDI, retorno máximo chegou a 101% do CDI

Por  Bruna Furlani -

A persistência da inflação exigiu uma postura mais dura do Banco Central sobre os juros, com a subida vertiginosa da Selic. Aliado a isso, a maior procura por títulos de renda fixa e a melhora do momento do agronegócio brasileiro fizeram com que os estoques, ou seja, o saldo final de Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) no mercado chegasse a R$ 267,2 milhões em junho, maior valor desde 2011.

O montante também ultrapassou, com folga, o estoque registrado por Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) durante o mesmo período, que foi de R$ 179,7 milhões. Esse é o resultado de um levantamento feito pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

“O agronegócio está muito mais aquecido do que o imobiliário por causa das elevadas taxas de juros [que costumam penalizar mais a parte imobiliária]”, diz Juliana Bouth, analista da Eleven Financial. “Para emitir esse título, a instituição tem que estar emprestando na outra ponta. Logo, a quantidade emitida não pode ultrapassar o lastro [a garantia] e há uma procura maior por esse tipo de crédito”, completa.

O movimento também é influenciado por questões de sazonalidade, como explica Carlos Daltozo, chefe de research da Eleven Financial. Segundo ele, os bancos costumam anunciar o percentual que será ofertado de crédito no âmbito do Plano Safra justamente nesse momento, o que tende a aumentar as garantias.

Não é apenas o estoque de LCAs que têm registrado alta no último período. Outro estudo feito pela Anbima apontou que o patrimônio das pessoas físicas investido em LCAs está aumentando. Destaque para o segmento de varejo tradicional, em que o patrimônio líquido saltou de R$ 30,7 bilhões em dezembro de 2021 para R$ 48,9 bilhões em maio deste ano.

Taxas mais elevadas

O maior interesse dos investidores também está diretamente ligado aos juros oferecidos, que foram forçados para cima com a subida da Selic para mais de 13% ao ano. Levantamento feito nesta terça-feira (19), com dados da plataforma Yubb, que compila a rentabilidade oferecida por várias corretoras, apontou que a taxa real máxima oferecida por uma LCA chegava a 6,78%.

O título em questão era emitido pelo Banco ABC Brasil, que possui classificação de risco de crédito (rating) nacional de longo prazo AAA, nível mais bem avaliado, de acordo com a Fitch Ratings. O vencimento do título era em 12 meses.

Apenas para se ter uma ideia, em março deste ano – quando a Selic estava em 11,75%, a taxa real máxima oferecida por um papel com mesmo vencimento era de 4,97%. Os números também são da Yubb.

No caso de LCAs prefixadas, era possível encontrar títulos que ofereciam até 13,81% para um papel com vencimento em 24 meses, emitido pelo Banco Pine. A instituição possui rating de longo prazo nacional BBB-, segundo a Moody’s. Ou seja, a casa possui boa qualidade de crédito, mas não está entre as mais bem avaliadas, já que a melhor classificação é AAA.

Levantamentos anteriores mostram que, em março, o retorno máximo oferecido por LCAs prefixadas chegava a 12,61% para um título com prazo semelhante, segundo números compilados na plataforma da Yubb, na época.

O Banco Pine também era destaque entre os papéis atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que ofereciam juros mais elevados, de até 101% do CDI. O vencimento do título é daqui a dois anos.

Retornos líquidos oferecidos por LCAs

PrazoIndexadorTaxas máximaEmissores
12 mesesPrefixado13,30%ABC Brasil
12 mesesIPCA6,78% + IPCAABC Brasil
12 mesesCDI95,05%ABC Brasil
24 mesesPrefixado13,81%Pine
24 mesesIPCA6,28% + IPCAABC Brasil
24 mesesCDI101%Pine
36 mesesPrefixado12,09%BTG Pactual
36 mesesIPCA5,26% + IPCABTG Pactual
36 mesesCDI95%BDMG
48 mesesPrefixado12,12%BTG Pactual
48 mesesIPCA5,09% + IPCABTG Pactual
48 mesesCDI93,65%BTG Pactual
60 mesesPrefixado12,16%BTG Pactual
60 mesesIPCA5,13% + IPCABTG Pactual
60 mesesCDI93,67%BTG Pactual

Fonte: Yubb. Levantamento feito na última terça-feira (19). Retornos são líquidos de Imposto de Renda, já que os papéis possuem isenção. 

Chama a atenção também o fato de que bancos com melhor rating estão oferecendo papéis com taxas mais elevadas, muitas vezes maiores do que instituições pequenas e médias, que costumam oferecer juros maiores porque o risco da casa também tende a ser maior.

“Agora, vemos a vantagem competitiva de ser um banco, porque eles conseguem captar a um percentual menor do CDI, e conseguem oferecer um juro mais atrativo”, diz Daltozo, da Eleven Financial. “Já no caso das fintechs, elas vão ter um custo mais elevado para captar e terão que repassar isso pra ponta [investidor]”, alerta o especialista.

Oportunidades à vista, mas não para todas as LCAs

Mesmo diante de taxas mais atrativas para os mais variados indexadores, a planejadora financeira CFP Letícia Camargo diz que é preciso cautela, porque os juros oferecidos pelos títulos podem ficar rapidamente defasados.

A especialista defende que há oportunidades no mercado de LCAs, mas diz que o momento é de extrema instabilidade e que as casas já fizeram uma série de revisões para cima da Selic neste ano e nos anos seguintes.

Portanto, é melhor aplicar agora em títulos atrelados à inflação ou ao CDI para não correr o risco de “travar” a rentabilidade do prefixado e a taxa básica de juros ir além desse percentual, pondera a alocadora.

Letícia diz que prefere delegar a alocação em prefixados para gestores de fundos de renda fixa que estão mais a par do mercado e conseguem entender os pontos mais adequados de entrada e saída.

A preocupação não é à toa e reflete o rápido ajuste das expectativas do mercado para a taxa básica de juros neste ano. Segundo dados mais recentes do Relatório Focus, do Banco Central, o ponto médio das projeções dos economistas aponta agora que a Selic deve encerrar 2022 em 13,75%. Em janeiro, a previsão para o fim deste ano estava em 11,75%.

Há, porém, casas que preveem uma Selic ainda mais alta. Na última segunda-feira (18), por exemplo, o Credit Suisse revisou a previsão de Selic para 2022, de 13,75% para 14,25%. O banco estima que haverá uma elevação de 50 pontos-base (0,50 ponto percentual) em agosto e mais duas, de 25 pontos (0,25 ponto percentual) cada, em setembro e outubro.

Revisões também nas estimativas para 2023 pelo Relatório Focus, que agora estão em 10,75%, sendo que no começo do ano, a expectativa girava em torno de 8,00%. Mudanças ainda nas perspectivas para a inflação que passaram de 3,36%, em janeiro, para 5,20%, nesta semana.

Leia mais:
Relatório Focus: mercado passa a ver Selic mais alta em 2023 com maior pressão inflacionária

Em um cenário de inflação cada vez mais persistente, a planejadora afirma que a vantagem das LCAs é que os investimentos são isentos de Imposto de Renda (IR).

“O IPCA está em 11,89% [nos últimos 12 meses] e quanto maior é o IPCA, maior vai ser o imposto que a pessoa vai pagar de imposto. Logo, vai corroer mais do rendimento agora. Por isso que títulos isentos tendem a ser mais vantajosos nesse cenário”, afirma Letícia.

Outro ponto positivo está na proteção que as LCAs possuem e que é oferecida pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que devolve até R$ 250 mil por investidor (CPF) e por instituição financeira, até o teto de R$ 1 milhão renovado a quatro anos, em caso de problemas como uma intervenção do Banco Central na instituição.

LCAs X CDBs

Pelo fato de ser isenta de Imposto de Renda, uma boa forma de analisar a rentabilidade de uma LCA é compará-la com a de um CDB, que não possui a mesma isenção tributária.

Se o investidor optar por adquirir uma LCA com rendimento líquido de 91% e vencimento em três meses, por exemplo, o rendimento seria o mesmo de um CDB com retorno bruto de cerca de 117% do CDI para o mesmo prazo. Isso porque a alíquota que seria cobrada do CDB seria de 22,5%.

Nesse caso, a sugestão da alocadora Letícia é comparar o retorno, com o risco de crédito e os prazos. Alinhar o objetivo do investimento com o vencimento também é fundamental, já que as LCAs possuem carência mínima de 90 dias e não é possível resgatá-las antes desse período.

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