Quando é hora de comprar ou vender uma criptomoeda?

Já caiu muito? Vale a pena comprar?
Por  Gustavo Cunha -
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Com a queda dos preços das criptomoedas, a maioria das conversas que tenho tido recentemente são sobre o momento de entrar no mercado. Já chegou no fundo? Vale a pena comprar?

O mundo de investimentos é muito curioso e cada vez mais me surpreendo como a parte comportamental se sobrepõe à parte mais técnica e racional. Quando escrevi o texto sobre entender a crise atual com o olhar do comportamento humano, trouxe um bom início para essa discussão que vem a seguir.

Para exemplificar vou usar o caso da Aave (AAVE), um protocolo de finanças descentralizadas (DeFi), mais precisamente de investimentos e empréstimos em cripto. Fazendo um paralelo raso com o mercado financeiro tradicional, dá para considerar a Aave como um banco, que capta e empresta dinheiro.

Bem, a Aave tinha um TVL (total value locked) de aproximadamente US$ 15 bilhões no final de março de 2022, que virou pouco mais de US$ 5 bilhões em julho. TVL funciona como o valor total de investimentos captados pela plataforma, como se fosse o valor captado por um banco via CDB. Nesse caso o que aconteceu é que em pouco mais de 3 meses o valor do ativo da AAVE reduziu para 1/3 do que era. Uma queda imensa e abrupta.

A despeito de alguns momentos de maior tensão para ver como os sistemas de liquidação da Aave iriam funcionar com tamanho resgate, queda de preço e volatilidade, o sistema está lá, funcionando perfeitamente, e se mostrou muito robusto.

Fazendo o paralelo com o sistema financeiro tradicional, imagina um banco que tenha os seus ativos reduzidos em 66% em um período de 3 meses. O que teria acontecido com ele? Posso te dizer que as chances desse banco ainda estar operacional e solvente após isso são ínfimas. Mas no caso da Aave aconteceu. Está tudo ok.

Analisando por outro prisma, o das “ações” da Aave, que pode ser representado por seu token, esse teve uma queda de mais de 50%, saindo de US$ 200 para US$ 90.

Ou seja, temos um protocolo que passou incólume por um grande estresse de mercado, se mostrando ainda mais resiliente a esses movimentos e que hoje vale metade do que valia antes. Se havia alguém com intenção de investir nele no final de março, esse investidor teria hoje ainda mais razoes para investir agora, certo?

Racionalmente a resposta me parece ser sim, e é a que deveria ser tomada, partindo-se do princípio de que essa pessoa teria a intenção de investir no final de março. Mas isso está longe de ser a realidade.

Usei o caso da Aave aqui, mas daria para generalizar. Muitos queriam comprar o Bitcoin (BTC) a US$ 50.000, mas poucos querem comprar ele agora que está US$ 20.000. Qual o racional dessa decisão? Houve algum fator individual dele que levassem as pessoas a isso, ou somente uma visão mais negativa de mundo, conjunturalmente?

Em um momento como o atual, onde só vemos notícias ruins (inflação não para de subir, Fed planejando subir os juros mais do que o esperado, protocolos de cripto que estão insolventes, eleições presidenciais no Brasil, etc…) o nosso comportamento nos leva a não tomar decisões que aumentem o risco nos nossos investimentos. E é aí que tomamos decisões sub-ótimas em termos de investimentos.

Frases como “a hora em que há sangue no mercado é a hora de comprar” e “compre quando todos querem vender e venda quando todos querem comprar”, vindas de ditos populares ou grandes investidores, são as que vem à minha cabeça e deveriam levar-nos a começar a ir contra esses fluxos de movimentos comportamentais do mercado. Nada muito abrupto e rápido, pois nunca saberemos se estamos realmente comprando no final do movimento de queda, mas já ir colocando o pé.

As grandes discussões atuais sobre inflação, por exemplo, refletem muito do passado e pouco do futuro em termos de investimento. A inflação alta atualmente é reflexo do aumento das commodities que ocorreram semanas atrás. O petróleo, por exemplo, subiu 70% nos últimos 12 meses. Isso acontecerá novamente? Se acontecer aí sim teremos outro impacto dele em inflação, mas se ele ficar parado onde está, o impacto direto dele sobre a inflação será zero.

A reflexão que quero trazer aqui é para que nos distanciemos um pouco do conjuntural e do bombardeio de notícias unidirecionais, no caso atual todas pessimistas, para podermos aí sim tomar decisões mais racionais e que no médio e longo prazo tenho certeza de que se mostrarão muito mais lucrativas.

Se em dezembro de 2021, no caso de cripto, tínhamos que fazer isso para não cair na tentação de comprar no pico dos preços, será que agora não é a hora de fazer isso para não vender no piso? Ou melhor, não seria a hora de aprendermos a fazer exatamente o oposto a isso?

Vender quando todos querem comprar e comprar quando todos querem vender. Lá vem essa frase de novo e os deixo com ela ecoando na cabeça de vocês.

Bons investimentos.

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Gustavo Cunha Sócio da gestora de ativos digitais Resetfunds, e do portal de educação Fintrender. Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro, foi ex-diretor do Rabobank Brasil, e está há mais de 5 anos no mercado cripto. Escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É um experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal)

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